O que é Doce nunca Amargou – Será?

 

“A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.”
Sigmund Freud

“Estava tudo bem, até que esta semana a minha vida virou do avesso. Estou revoltada e às avessas.”, expressou a minha coachee Ana, chateada com duas situações no seu ambiente profissional (relativas a pedido de férias, e ter de fazer um trabalho não esperado, que ela “não pediu para fazê-lo”). Eis que a situação se tornou mais interessante, quando Ana me referiu que continuava irritada, porque a partir do momento que ela tinha expressado o que queria, ela tinha a expectativa de obter o que desejava, mesmo quando a chefia, numa das situações, havia reconhecido que entendia a frustração dela, mas que não estava no seu poder mudar a situação.

Embora Ana estivesse consciente do seu mal-estar, da sua agressividade, dos seus pensamentos de vingança, que estavam a afetar as suas horas de sono, devido a quebra das suas expectativas, o facto é que ela optava por se manter nesses sentimentos de dor, infligindo dor a si mesma.

Existem 3 formas de agir perante factos: 1 – há situações que podemos expressar a nossa opinião, e resolver como gostaríamos. 2 – Há situações na vida que podemos expressar a nossa opinião, mas que não as podemos resolver (não estão em nosso poder) ou obter resultados como esperávamos; e, 3 – existem outras, quem nem podemos resolver e nem expressar tudo aquilo que queríamos.

Embora nos é reservado o direito de expressar a nossa opinião, quando o fazemos de forma apropriada (ver meu artigo Comunicação, Para que te quero?), isso não quer dizer que obtemos o que esperávamos, e nem que um assunto será resolvido à nossa maneira.

Sigmund Freud introduziu, há mais de um século, dois conceitos interessantes – o princípio da realidade, que é regido pelo nosso conhecimento de que a realidade física, na nossa luta pela sobrevivência, e a social (com as regras e normas sociais), com os reveses da vida quotidiana, nos ensina que nem sempre as coisas acontecem quando e como queremos. Esse princípio frusta e modifica constantemente o princípio do prazer, que rege o desejo da pessoa obter uma gratificação imediata, procurando o prazer e agindo de forma a evitar a dor, mostrando uma baixa tolerância à frustração. Um exemplo simples, que me recordo conversando com um amigo foi de que, o seu primo ao ter recebido um jogo didático de natal da tia, frustrado, esteve à beira de jogar o presente/a prenda para a lareira (ação evitada pelo pai), porque não satisfazia a sua expectativa. A criança foi ensinada pelo pai de que nem sempre as coisas acontecem como queremos, e há que saber lidar com a frustração, sem que se atire por birra e raiva o brinquedo ao fogo. Se a criança não é educada nesse sentido, poderá chegar a ser um adulto imaturo, caprichoso, e o agravante principal, sem o “treino” de gerir seus impulsos e emoções.

Por outro lado, uma educação demasiado “realista” gera que o adulto tenha dificuldade em saborear a vida com prazer e naturalidade. Nessa luta antagónica entre prazer e problema, vida individual e a vida coletiva, abundância e escassez, espontaneidade e repressão, etc., vamos gerindo as nossas vidas.
Mas voltando a minha cliente, será que ela continua a ser uma adulta imatura regida pelo princípio do prazer, de obter rapidamente o que parece doce, o prazer seguro, mas que amarga quando a realidade não vai de encontro às suas expectativas?

Na nossa complexidade emocional, tendemos a repetir situações, mesmo que inconsciente, para nos infligir sentimentos conhecidos, no caso a minha cliente, raiva, revolta, dor. Essa repetição inconsciente é como que a reprodução de um acontecimento passado, num contexto diferente, que pode ter sido na escola ou com os irmãos, por exemplo, de frustração à expectativa, e raiva pela impossibilidade de agir.

Se vermos sob um prisma racional, diríamos que ficar chateada por dois dias, é compreensível. Mas Ana não obtém vantagem quando já está claro, até para ela, que não é possível resolver as situações (a não ser que ela decidisse se despedir), e opta por permanecer naqueles sentimentos de raiva, vingança, por dias consecutivos, infligindo somente mais dor e stress emocional. É como que ela reagisse emocionalmente como uma criança, sem recorrer a compreensão madura da mulher adulta.

Fica para todos nós a pergunta – Porquê desejo manter o sentimento de dor, quando eu o posso largar, pois o doce amargou? – e a mensagem que o equilíbrio, é uma virtude.

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Autora dos 7 Poderes para se Tornar o seu Próprio Mestre: Karina M. Kimmig
Humanistic Coach Master Trainer-IHCOS®
Presidente internacional da IHCOS, Vice-Presidente da ECA, Embaixadora da ICI e IN
Em MOREletter, 11.03. 2017