Quando Perdeu a sua Espontaneidade?

Imagine-se a entrar numa sala com uma plateia com 500 pessoas desconhecidas, e um senhor no palco o chama para falar durante 30 minutos. Foi apanhado de surpresa, sem aviso prévio, e nos dois minutos que caminha até ao palco, sabe que terá que ter um discurso de improviso. Um discurso de improviso é um bom exemplo de espontaneidade. Quantos de nós iríamos caminhar até ao palco de ânimo leve e descontraídos?

A espontaneidade é uma resposta imediata a uma situação, a um desafio, mostrando a nossa atitude perante ao problema. Na raiz etimológica, espontaneidade provém do latim sponte, que significa livre, de boa vontade, voluntário. Na situação que acima descrevi, uma atitude espontânea é aceitar com alegria a chamada de última hora, ir voluntariamente até ao palco, e com boa vontade partilhar algo seu com a plateia. Num certo nível, a espontaneidade é amiga íntima do talento inato, da criatividade, para dar resposta a uma situação, e da originalidade.

Quando perdeu a sua espontaneidade?

Uma vez, num curso, anos atrás, eu recebi uma executiva de topo, séria e rígida, de um banco inglês. Ao chegar ao curso, ela estranhou o local onde decorreria o curso. A MORE Institute havia alugado salas de um A.T.L. (Actividades de Tempos Livres). Como o espaço possuía muito boas condições e era centralizado, consideramos o local ideal para a formação. E ali estava uma executiva de topo num espaço lúdico de crianças. No final da manhã do primeiro dia do curso, que ela estava a gostar bastante, convidei o grupo para uma atividade na varanda exterior. Assim que saímos para a varanda, ela viu uma amarelinha/jogo da macaca artisticamente pintada no chão. Sentindo-se então à vontade, espontaneamente, ela tirou seus saltos altos e pulou a amarelinha/saltou à macaca. A cada pulo, o rosto dela expressava muita alegria. Ao terminar, feliz, ela veio ter comigo e disse que adorava saltar à macaca/ amarelinha, e não o fazia desde a infância. Foi uma cena inesquecível, observar aquela mulher expressando-se livremente e descontraída, sendo feliz com algo tão simples.

Quando crianças somos espontâneos. Falamos o que pensamos sem medo, sem o autojulgamento se a palavra está certa ou errada, bem pronunciada ou não. Falamos. Resolvemos ir ter com alguém a rua, mesmo que nos seja totalmente desconhecido, sorrir, abraçar, sem o filtro se devo ou não fazê-lo. Fazemos pelo ato em si. Contudo, também em criança, aprendemos regras de convívio social, regras morais, valores, os comportamentos certos e os errados, que irão nos moldando. E, essas regras nos vão castrando, pouco-a-pouco, a espontaneidade. Na educação, nos ensinam a desenvolver o intelecto, a coordenação motora, mas não nos ensinam ou incentivam a manutenção da espontaneidade. A espontaneidade é o que o permite se mostrar, agir, sem se reprimir, sem ultrapassar limites, com bondade no coração, para com o outro, para consigo mesmo, e por isso flui, como o fluir da água nas curvas e contracurvas de um rio. A espontaneidade nos permite entrar em contacto com a liberdade, de fazer a coisa de uma nova forma, sem medo, atuando no agora, no presente, com as circunstâncias que nos encontramos e da maneira mais adequada. Por isso a espontaneidade É. É a manifestação do seu SER, da entrega, que abandonou a censura dos pensamentos – certo ou errado, devo ou não devo. É o momento da expressão do seu Ser.

Para reconquistar a espontaneidade que foi assaltada pelo medo, e refém das convenções morais e sociais a que fomos formatados, e que continuamos a sê-lo na sociedade que vivemos, temos de vencer os medos – medo de rejeição, da exclusão, de errar, de se expor, de não ser bom o suficiente, de como o outro irá reagir, de dizer amo-te sem pensar que é fraco.
É no medo, nas regras e limitações que deixa de ser espontâneo. Passa a ser rígido, a viver no mundo do preto e branco, deixa de responder criativamente a realidade, deixa passar os momentos de alegria, as oportunidades, deixa adormecida uma grande riqueza interna, que o permite ser mais quem É, deixa de expressar mais a sua alma, e ser mais feliz. A espontaneidade permite-o libertar-se das amarras, de deixar partir a paralisia, de fazer realmente o que gostaria e não o que a convenção social dita como certo, de respirar vida, de amar livremente, de expressar a sua alma, de viver o momento. Recorde que em criança a espontaneidade permitia-o ser feliz no momento, naquele instante. Toda a felicidade no agora. E, isso, bastava.

Já referia Jacob Moreno, “Se a espontaneidade é o fator importante para o mundo do Homem, porque é tão pouco desenvolvida? A resposta é: o Homem tem medo da espontaneidade, como seu ancestral tinha medo do fogo; teve medo do fogo até que aprendeu a fazê-lo. O Homem terá medo da espontaneidade até que aprenda a treiná-la.” Eu diria, vença o medo, use o momento, expresse a sua alma, que emergirá a sua espontaneidade. Recorde que de momento em momento, o caminho da sua vida é construído, de forma mais leve, original, livre, ou de forma mais limitada, repressiva e pesada. Opte, “espontaneamente”, pelo lado que o faça mais feliz.

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Autora dos 7 Poderes para se Tornar o seu Próprio Mestre: Karina M. Kimmig
Humanistic Coach Master Trainer-IHCOS®
Presidente internacional da IHCOS, Vice-Presidente da ECA, Embaixadora da ICI e IN
Em MOREletter, 31.08. 2017