Quando o Medo Cega…

 

«Já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.»
José Saramago

Quando travámos uma mudança em nós, quando não somos capazes de sair de nós, dos nossos limites e medos, de nos colocar em causa, ou mesmo de sentir as nossas emoções de dor, então somos cegos. Esta cegueira que descrevo, é uma cegueira emocional. Ela caracteriza-se por uma cegueira que nos venda os olhos, mesmo que possamos ver fisicamente.

E cegos consideramos que a razão, o cognitivo, nos faz ver. Contudo, ela (a razão) alia-se ao medo, por intermédio de justificações e análises filosóficas para contrapor a dor, a raiva e ao próprio medo. Todavia, continuamos cegos emocionais.

Como cita o ditado popular, o pior cego é aquele que não quer ver, assim nos comportamos para com aquilo que não queremos ver em nós. A cegueira derivada do medo, limita. Ela cria fantasmas aonde não existem. Cria desculpas para o que falha. Cria motivos racionais para justificar-se porque não se toma riscos. Cria armaduras, máscaras, que não permitem vermos o nosso verdadeiro Eu, desnudo.

O medo faz triplicar o perigo real. Faz frear quando se deve avançar. É viver em sofrimento justificado. É ver o outro mais forte, ou que pode mais do que eu, sem o ver igual. É ver a sombra maior que o objeto em si, e não ver a luz que permite a sombra existir. É a insegurança do erro. É acreditar que o sofrimento passado não tem solução, e portanto, quanto mais se fugir dele, mais o evito. Falsa ilusão que a cegueira emocional cria.

Uma vez um turista, com medo de ir visitar sozinho o calabouço num castelo, entrou, espreitou o calabouço, e imediatamente saiu. Nessa noite ele teve um pesadelo. Curioso, resolveu no dia seguinte avançar calabouço adentro com os seus amigos, mas sem chegar até a saída do calabouço, sem completar totalmente a visita. Nessa noite teve como que uma sensação de pesadelo. Mas se o calabouço é apenas um vestígio histórico da cegueira social do passado, qual era o medo dele? De olhar a própria prisão que o medo ali lhe colocava, e que permanecia o “assustando” nas suas fantasias noturnas? Essa é a nossa grande prisão, o medo gerado pela cegueira, e a cegueira gerada pelo medo. Não vemos, porque acreditamos que sofremos; e sofremos porque não vemos. E qual é a saída do calabouço?

Há muitos que olham, mas são cegos. E porquê não acordámos da cegueira emocional? Porque acordar é criar consciência, e será que ganhámos com isso? E quem ganhará com isso, além de nós mesmos?

Despertar a consciência não quer dizer necessariamente que é extraordinário. Poderá ver quem você é, quem você é mesmo. Mas é nisso que reside o maravilhoso. Pode olhar para si como É, Quem É, e viver como É. E pode olhar para o outro como alguém ao mesmo nível que o seu…então, aí surge o problema. Como tratar alguém respeitosamente, dar-lhe o valor que merece, sem lhe retirar nada, e ao mesmo tempo ser tão importante como o outro? Sem lhe ceder poder, sem lhe retirar poder? Sem lhe sacar o valor próprio, mas sem lhe atribuir demasiada importância. Sem subjugar e sem ser subjugado?

Como viver num mundo que ver, e ver outros que são cegos pelo medo e que não o sabem, pode levá-lo a questionar se vê demais? Pois para que os outros vejam como vê, terão que vencer o medo, a cegueira emocional que os faz refém.

A saída do calabouço se faz ao enfrentar o sofrimento, ao enfrentar a ilusão que a mente acredita ser real. Se faz ao dirigir-se para a luz. Quando a luz se faz presente, vemos do que somos feitos, que matéria nos molda, nos vemos, e é exatamente isso que nos livra da prisão do medo. Porque para “Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. A vida continua sempre a avançar, quer nos portemos como cobardes, quer nos portemos como heróis”, como escreveu Henry Miller.

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Autora dos 7 Poderes para se Tornar o seu Próprio Mestre: Karina M. Kimmig
Humanistic Coach Master Trainer-IHCOS®
Presidente internacional da IHCOS, Vice-Presidente da ECA, Embaixadora da ICI e IN
Em MOREletter, 08.06. 2017